Aversão e atração por uma solução política podem alterar não apenas nossa avaliação da resposta, mas também a importância que atribuímos ao próprio problema.

Por Anna Márcua Teixeira
De um lado, a reforma tributária é apresentada como “a maior conquista depois do Plano Real”. Do outro, como “uma maluquice” que precisa ser suspensa ou profundamente modificada.
As duas declarações tratam do mesmo sistema aprovado pelo Congresso. Como uma reforma pode ser, ao mesmo tempo, uma conquista histórica e uma ameaça ao país?
A resposta talvez não esteja apenas nos números. Está também na maneira como a polarização altera nossa percepção sobre o tamanho dos problemas.
Em junho de 2026, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro declarou que suspenderia a reforma tributária por pelo menos um ano. Em outro evento, resumiu sua crítica de forma contundente: “É uma maluquice. Quase 40% de imposto, quem aguenta?” Sua campanha argumentava que a reforma elevaria a carga, prejudicaria profissionais liberais e serviços e manteria um sistema excessivamente complexo.
Existem questões legítimas nesse diagnóstico. A quantidade de exceções pressiona a alíquota de referência. Alguns setores podem sofrer aumento de carga. A convivência entre o sistema antigo e o novo trará custos, insegurança e desafios operacionais. Nada disso deve ser ignorado.
Mas a crítica avança além desses pontos quando transforma uma alíquota-padrão estimada em carga efetiva para todos, apresenta o aumento setorial como aumento generalizado e praticamente apaga os problemas do sistema atual: cumulatividade, guerra fiscal, insegurança jurídica, tributação na origem e enorme custo de conformidade.
A reforma deixa de ser uma solução imperfeita
para problemas reais e passa a ser o próprio problema.
Do outro lado, Fernando Haddad reagiu afirmando que a oposição pretendia “destruir a maior conquista depois do Plano Real”. Dario Durigan, então ministro da Fazenda, chamou o adiamento de “grave problema” e associou a posição do adversário a uma “visão do passado”. Também afirmou que o maior risco seria revisitar a decisão política construída pelo Congresso.
Esse lado igualmente possui razões relevantes. Suspender uma transição já incorporada às decisões de governos e empresas geraria insegurança. Sistemas foram desenvolvidos, contratos adaptados e investimentos realizados. Além disso, um presidente não poderia simplesmente congelar todo o calendário por vontade própria: pontos estruturais estão definidos na Constituição e em leis complementares e dependeriam novamente do Congresso.
O problema aparece quando a defesa da reforma transforma qualquer crítica em retrocesso, desinformação ou resistência de grupos privilegiados. A alíquota elevada, a proliferação de regimes diferenciados, os efeitos sobre determinados serviços e os riscos da implementação não desaparecem porque a reforma representa um avanço em relação ao sistema atual.
Nesse caso, a reforma deixa de ser uma solução aperfeiçoável
e passa a ser uma conquista que precisa ser protegida
até mesmo das perguntas legítimas.
O que o estudo revela
Um estudo publicado em 2025 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences ajuda a compreender esse fenômeno. Os pesquisadores Adrienne Kafka, Troy Campbell e Aaron Kay realizaram quatro experimentos sobre o chamado solution spillover – o transbordamento da solução sobre a percepção do problema.
Os experimentos mostraram que questões inicialmente pouco polarizadas passaram a ser vistas de maneira partidária quando foram associadas a soluções ideologicamente divisivas. Pessoas que rejeitavam a solução diminuíam a gravidade do problema. Aquelas que se identificavam com ela passavam a considerar o mesmo problema mais grave.
Os autores identificaram dois movimentos. O primeiro é a aversão à solução: não gostamos da resposta proposta e, para justificar essa rejeição, diminuímos a importância do problema. O segundo é a atração pela solução: identificamo-nos com a resposta e, por isso, aumentamos a dimensão do problema ou reduzimos nossa disposição para enxergar as limitações da proposta.
É importante fazer uma ressalva: o estudo não permite diagnosticar a intenção psicológica dos candidatos. Não prova que um político acredita menos em determinado problema apenas porque rejeita a solução do adversário. A pesquisa ajuda a compreender como esses discursos organizam a percepção do público.
Dois lados, dois recortes da realidade
Para uma parte da oposição, reconhecer os problemas que justificaram a reforma significaria conceder legitimidade a uma solução associada ao governo adversário. A narrativa, então, desloca o debate: o problema deixa de ser a estrutura caótica da tributação do consumo e passa a ser exclusivamente o excesso de impostos e o tamanho do Estado.
Para uma parte do governo, reconhecer as falhas da reforma poderia parecer uma concessão aos que desejam paralisá-la. Por isso, as críticas são frequentemente recebidas não como contribuições ao aperfeiçoamento, mas como tentativas de destruir uma conquista histórica.
A polarização não precisa inventar fatos.
Ela pode operar selecionando fatos verdadeiros,
ampliando alguns e tornando outros invisíveis.
É verdade que a alíquota-padrão projetada é elevada. Também é verdade que ela não representa a carga efetiva de todos os contribuintes. É verdade que alguns serviços podem ser mais onerados. Também é verdade que o sistema atual contém tributos cumulativos e custos ocultos. É verdade que a implementação apresenta riscos. Também é verdade que interrompê-la depois de anos de preparação produziria outros riscos.
A realidade tributária não cabe inteira em nenhuma das narrativas.
Há ainda um detalhe revelador. Ao longo da campanha, o discurso da oposição mudou. Primeiro se falou em revogar a reforma e fazer outra. Depois, em suspendê-la por um ano. Mais adiante, a própria equipe de Flávio Bolsonaro passou a afirmar que não pretendia acabar nem paralisar a reforma, mas corrigir distorções e avaliar o encurtamento da transição.
A reforma permaneceu praticamente a mesma nesse intervalo. O que mudou foi a forma de apresentá-la.
Esse movimento mostra como a disputa política não ocorre apenas em torno da melhor solução. Ela também redefine qual é o problema, qual é sua gravidade e quais riscos merecem nossa atenção.
Quando uma reforma ganha dono, partido e identidade, deixamos de perguntar apenas se ela funciona. Passamos a decidir se o problema existe conforme nossa relação com quem apresentou a solução.
É assim que a polarização distorce a realidade: não necessariamente tornando verdadeiro o que é falso, mas impedindo que verdades diferentes permaneçam visíveis ao mesmo tempo.
Uma reforma tributária responsável precisa sobreviver tanto à demonização quanto à idolatria. Não deve ser suspensa apenas porque foi conduzida pelo adversário, nem protegida de críticas apenas porque representa uma conquista.
A pergunta madura não é "de que lado está essa solução?".
É outra: qual problema ela resolve, quais problemas ela cria
e o que as evidências nos permitem corrigir?
Enquanto não formos capazes de sustentar essas três perguntas ao mesmo tempo, continuaremos usando a tributação não para compreender o país, mas para confirmar o lado ao qual já pertencemos.
REFERÊNCIAS
KAFKA, Adrienne M.; CAMPBELL, Troy H.; KAY, Aaron C. Solution spillover: Pairing issues with ideological solutions fuels polarization. PNAS, v. 122, n. 33, 14 ago. 2025. DOI: 10.1073/pnas.2512064122.
CNN BRASIL. Flávio diz que suspenderá reforma tributária por um ano caso seja eleito. 9 jun. 2026.
UOL / ESTADÃO CONTEÚDO. Flávio Bolsonaro defende suspensão da regulamentação da reforma tributária e propõe ‘tesouraço’. 22 jun. 2026.
UOL / ESTADÃO CONTEÚDO. Equipe de Flávio modula discurso contra reforma tributária e avalia abreviar transição. 19 ago. 2026.
SBT NEWS. Durigan: adiar reforma tributária seria ‘grave problema’. 2 jul. 2026.
UOL. ‘Vocês querem o Milei aqui?’, diz Haddad; Tarcísio defende argentino. 29 set. 2026.

Liberdade de pensamento e responsabilidade na informação
O Blog da Auditece valoriza a liberdade de pensamento, a pluralidade de ideias, a argumentação fundamentada e o respeito entre diferentes perspectivas. Os artigos assinados expressam as opiniões de seus respectivos autores e não traduzem necessariamente o posicionamento institucional da Auditece. Os editoriais, identificados como tal, apresentam a manifestação da Associação sobre temas de interesse da categoria e da sociedade.
