Conforme dados da Junta Comercial do Estado, entre janeiro e novembro, o Ceará tem um saldo de 56,9 mil novos negócios. Facilidade da formalização, desemprego e demanda aquecida são motivos para crescimento

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas ao longo de 2020, o cearense tem utilizado a criatividade para garantir o sustento e abrir mais negócios. Entre janeiro e novembro, o Estado registrou a abertura de 82.082 novas empresas e 25.178 fechamentos, resultando em um saldo positivo de 56.904, segundo a Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec). O número é 12,2% maior que igual período do ano passado e o melhor em pelo menos sete anos.

A presidente da entidade, Carolina Monteiro, aponta que já vinha percebendo a tendência do resultado superar o ano de 2019 há alguns meses, o que a surpreendeu positivamente em meio à expectativa gerada com a crise provocada pelo novo coronavírus. "Desde o começo da pandemia, havia uma preocupação em como essas aberturas iam se comportar e também a quantidade de fechamentos, mas os números vêm mostrando surpreendentemente que não era cabível essa preocupação, na medida que a gente teve saldo positivo mês a mês, exceto abril e maio", afirma.

Ela ainda prevê que o cenário deve se repetir em dezembro, uma vez que a expectativa é encerrar o ano com saldo positivo na casa das 60 mil empresas.

Segundo Monteiro, a desburocratização e a digitalização do processo de abertura feito em 2017 teve um forte papel na continuidade da criação de empresas mesmo durante a pandemia. Ela lembra que, para realizar a legalização, o empreendedor não precisa mais se deslocar, concluindo o processo virtualmente já com as principais licenças e alvarás, no caso de empresas de baixo risco.

"A gente redesenhou os processos e, de 2017 para cá, nós conseguimos reduzir de 145 dias para 36 horas o tempo médio de abertura de uma empresa de baixo risco. Nós ficamos quatro meses em isolamento social rígido e os empreendedores que tiveram alguma ideia e resolveram montar um negócio contaram com a Junta à disposição para que pudessem se formalizar", destaca a presidente.

Ela ainda aponta que desde 2017 vem observando com mais constância o crescimento do saldo de empresas abertas no Estado justamente pela maior facilidade para formalização dos negócios, o que, segundo ela, era um dos principais motivos da informalidade. "As pessoas eram desestimuladas pela burocracia. Ou nem buscavam a formalização ou iniciavam o processo e não concluíam".

Serviços

No acumulado de janeiro a novembro deste ano, o setor de serviços foi o que apresentou o melhor resultado entre as atividades monitoradas, com 43.477 aberturas e 11.642 fechamentos, totalizando em um saldo de 31.835 novas empresas. Em seguida, aparece o comércio, com 30.608 aberturas, 11.150 fechamentos e saldo de 19.458.

A diretora institucional da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Ceará (Fecomércio-CE), Claudia Brilhante, aponta que o cearense tem um talento nato para o comércio, o que acaba se refletindo no número de empresas que são abertas e na própria configuração da economia do Estado.

"O nordestino tem no sangue a veia de comerciante. Quando ele tem que parar e ficar dentro de casa, ele usa a criatividade. Muitas pessoas começaram abrir negócios dentro de casa mesmo, com MEI (Microempreendedor Individual), e começaram a criar startups, a vender comida gourmet, bolo, dindim, decoração, artesanato", indica.

Brilhante também lembra que muitas pessoas perderam o emprego, e que o negócio próprio foi a saída para garantir a sobrevivência da família. "Temos visto muitas empresas familiares, colocando a criatividade em prática, e também negócios de jovens que ficaram em casa e a ocasião despertou a vontade de trabalhar. Eles começaram a criar empresas, a vender pelas redes sociais, e eles tanto fabricam para vender como compram para revender".

A diretora institucional da Fecomércio-CE ainda aponta que muitas pessoas iniciaram os negócios, mas ainda não buscaram a legalização, o que deve continuar gerando bons resultados nos próximos meses à medida que os empreendedores se formalizem.

Alternativa

O presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado do Ceará (FCDL-CE), Freitas Cordeiro, reforça a tese de que o empreendedorismo é a saída que o cearense encontrou ao desemprego. "É positivo, porque a pessoa não ficou parada, está gerando estímulos de alguma forma", afirma.

Ele também avalia como positivo o crescimento da formalização, um dos principais gargalos ainda a serem combatidos no setor. "Para nós, é um alento, porque estamos olhando só a ponta do iceberg. Ainda tem muitos informais que ficam por baixo disso. Infelizmente, para algumas pessoas, qualquer possibilidade é uma alternativa de sobrevivência. É como dizem: para um náufrago, qualquer pedaço de pau é jangada".

Cordeiro ainda lembra que o empreendedorismo é positivo para o mercado de trabalho de forma geral, tendo em vista que os negócios geram empregos. "É bom para a concorrência, para o consumidor, e cada micro e pequena empresa gera, em média, cinco postos de trabalho. Então, ajuda a minorar o desemprego", destaca.

Indústria

A indústria completa a lista dos setores monitorados pela Jucec e também apresentou saldo positivo de 5.611 negócios decorrente da diferença entre 7.997 aberturas e 2.386 fechamentos registrados entre janeiro e novembro.

O vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, André Montenegro, avalia que o aumento no número de empresas tem acontecido pelo aquecimento da demanda no Estado após os meses em que a atividade teve de ficar fechada como parte das medidas de combate à disseminação da Covid-19.

"Com a saída da pandemia, a demanda está aquecida e muitas empresas foram abertas pra suprir essa demanda. A indústria está querendo trabalhar a todo vapor e está faltando matéria-prima. As pessoas abriram novas empresas, outras foram reabertas, porque o mercado ficou muito aquecido. É a volta da economia, a chamada recuperação em V. Ninguém abre empresa sem ter mercado. São notícias maravilhosas", ressalta.

Segundo ele, o setor da construção civil, impulsionado pela baixa da taxa de juros, é o segmento que tem puxado o avanço da indústria cearense de modo geral por ter que demandar outras atividades correlacionadas.

"A construção civil, quando reaquece, puxa outros setores da indústria. Nesse momento, é ela que está puxando a economia de material de construção, cerâmicas, química, de minerais, de aço, ferragens. Ela está sendo a locomotiva", afirmou. Ele acredita que o início de 2021 deverá manter a tendência de aquecimento na indústria cearense.

Fonte: Diário do Nordeste